“Tenho a tua ausência debaixo dos lençóis.
É ela que aperto nas noites em dói mais, nas noites que não passam, nas noites em que a lua ataca (a lua a encher e por debaixo dela o vazio; que interessa o tamanho da lua se não estás aqui para a ver?) por sobre o chão e as marcas dos teus pés vadios.
E até o silêncio sabe dialogar.
Nenhum corpo define se estamos ou não juntos. A nossa presença estabelece-se por parâmetros que a matéria não compreende (como pode algo corpóreo entender o que não tem representação senão dentro do ar que respiramos?), e a geografia é esoterismo quando se ama assim.
Havia que inventar novos mapas para nos poder encontrar.
A sala do nosso prazer cheira ao suor que nos deitámos, a mágoa tresanda por todos os cantos, e na televisão todas as mulheres têm o teu corpo, todos os homens são eu quando te olham. Sinto que o diabo nos inveja, por tudo isto ser tão pouco e ainda assim matar. Nada dói tanto como saber que estou a milhões de passos de ti e ainda assim te poder tocar.
Que nome se dá à masturbação quando inclui o meu sexo no teu?
As pessoas são facas moventes (até a alma sabe sangrar), e as casas onde trocámos sonhos por impossibilidades são feitas de rugas e de derrota.
Quantas putas vale um beijo teu?
Sei o nome do homem que te agarra os braços todas as noites, nas quatro paredes que preferiste construir (talvez para saberes ainda mais que entre eu e tu só pode haver espaço aberto, e que nenhum muro nos impede o abraço); quando a saudade aperta fecho os olhos e vou pelas ruas à procura do teu sabor, nas esquinas onde o velho gagá que um dia nos disse que íamos morrer amarrados insiste em tratar-me no plural. “Ficam bem juntos”, diz-me. E eu tenho a certeza de que no meio disto tudo os malucos são os outros, os que teimam em ver no meu corpo sozinho contigo ao lado apenas um homem solitário. “Eu bem disse que iam ficar juntos para sempre”, repete-me ele, e pede o cigarro de sempre e o aperto de mão de sempre. “A menina tem a mão mais humana do mundo”, repete-te (a tua cara quando ele to disse pela primeira vez: a humanidade fede nas mãos, tu sabes) enquanto agarra a minha mão e sente nela o peso da tua. E por entre o nevoeiro de tijolos onde te escondes estará, nesse instante, uma boca e um beijo à minha espera.
Amo-te e nenhum quilómetro pode ser usado em legítima defesa.
Prefiro não te ter do que te perder.”
Pedro Chagas Freitas
É ela que aperto nas noites em dói mais, nas noites que não passam, nas noites em que a lua ataca (a lua a encher e por debaixo dela o vazio; que interessa o tamanho da lua se não estás aqui para a ver?) por sobre o chão e as marcas dos teus pés vadios.
E até o silêncio sabe dialogar.
Nenhum corpo define se estamos ou não juntos. A nossa presença estabelece-se por parâmetros que a matéria não compreende (como pode algo corpóreo entender o que não tem representação senão dentro do ar que respiramos?), e a geografia é esoterismo quando se ama assim.
Havia que inventar novos mapas para nos poder encontrar.
A sala do nosso prazer cheira ao suor que nos deitámos, a mágoa tresanda por todos os cantos, e na televisão todas as mulheres têm o teu corpo, todos os homens são eu quando te olham. Sinto que o diabo nos inveja, por tudo isto ser tão pouco e ainda assim matar. Nada dói tanto como saber que estou a milhões de passos de ti e ainda assim te poder tocar.
Que nome se dá à masturbação quando inclui o meu sexo no teu?
As pessoas são facas moventes (até a alma sabe sangrar), e as casas onde trocámos sonhos por impossibilidades são feitas de rugas e de derrota.
Quantas putas vale um beijo teu?
Sei o nome do homem que te agarra os braços todas as noites, nas quatro paredes que preferiste construir (talvez para saberes ainda mais que entre eu e tu só pode haver espaço aberto, e que nenhum muro nos impede o abraço); quando a saudade aperta fecho os olhos e vou pelas ruas à procura do teu sabor, nas esquinas onde o velho gagá que um dia nos disse que íamos morrer amarrados insiste em tratar-me no plural. “Ficam bem juntos”, diz-me. E eu tenho a certeza de que no meio disto tudo os malucos são os outros, os que teimam em ver no meu corpo sozinho contigo ao lado apenas um homem solitário. “Eu bem disse que iam ficar juntos para sempre”, repete-me ele, e pede o cigarro de sempre e o aperto de mão de sempre. “A menina tem a mão mais humana do mundo”, repete-te (a tua cara quando ele to disse pela primeira vez: a humanidade fede nas mãos, tu sabes) enquanto agarra a minha mão e sente nela o peso da tua. E por entre o nevoeiro de tijolos onde te escondes estará, nesse instante, uma boca e um beijo à minha espera.
Amo-te e nenhum quilómetro pode ser usado em legítima defesa.
Prefiro não te ter do que te perder.”
Pedro Chagas Freitas

