PORQUE ME APETECE
"O mais importante do mundo é a vertigem.
E para haver vertigem tem de haver precipício. Tenho de estar lá, junto ao local onde a queda acontece, para conseguir manter-me de pé. Todas as vidas precisam de vertigem. E é nas tuas mãos que encontro o que me faz cair e que ainda assim me mantém de pé.
Levanto-me todos os dias para a transgressão do teu precipício.
E caminho pelas pedras da calçada a milímetros do instante em que há toda uma derrocada à minha espera. Ou estou a milímetros da derrocada ou não me sabe a nada. Tenho de sentir que pode acabar, que está sempre perto de acabar, isto que nos faz gente, que nos sustém, indigentes da pele, e se não houver o perigo do teu prazer mais vale muito bem morrer.
O mais importante do mundo é saber que um dia acabas.
E é assim que me agarro ao peso dos minutos sem precisar de balança, as pernas assustadas a cada momento sem ti, à espera de que possa ser o derradeiro, e enquanto há a tua vida há esperança. Um dia vais e isto acaba: eis tudo o que preciso para me levantar quando a manhã me pede renúncia. No momento em que te amo (as rugas das tuas mãos, a agressividade sexual da tua barba em mim, o diálogo de dois corpos à procura das palavras impossíveis) todos os abismos se sabem abrir. Sei que vou morrer de ti mas sei que sem ti só me falta mesmo morrer.
Aprendo todos os dias a ser analfabeta de ti.
E não escrevo senão o silêncio, ou então as linhas enchem-se do que não tem ordem, e se há caos que seja o do nosso suor entornado. Depois ensinas-me, com paciência e método, que há que saber muito para estar à altura de ignorar o que nos une, e que todos os abraços são uma aprendizagem. Morre-se no segundo em que já não há mais abraços para aprender, mais linhas desordenadas para ocupar. Exijo as tuas mãos em mim como no inferno, à espera do chamamento final de uma cólera consentida. Ordeno-te que me mantenhas desordenada para sempre. E que o único mandamento seja o que nos obriga a pecar.
O mais importante do mundo é o que mesmo proibido pode ser feito."
Pedro Chagas Freitas
"O mais importante do mundo é a vertigem.
E para haver vertigem tem de haver precipício. Tenho de estar lá, junto ao local onde a queda acontece, para conseguir manter-me de pé. Todas as vidas precisam de vertigem. E é nas tuas mãos que encontro o que me faz cair e que ainda assim me mantém de pé.
Levanto-me todos os dias para a transgressão do teu precipício.
E caminho pelas pedras da calçada a milímetros do instante em que há toda uma derrocada à minha espera. Ou estou a milímetros da derrocada ou não me sabe a nada. Tenho de sentir que pode acabar, que está sempre perto de acabar, isto que nos faz gente, que nos sustém, indigentes da pele, e se não houver o perigo do teu prazer mais vale muito bem morrer.
O mais importante do mundo é saber que um dia acabas.
E é assim que me agarro ao peso dos minutos sem precisar de balança, as pernas assustadas a cada momento sem ti, à espera de que possa ser o derradeiro, e enquanto há a tua vida há esperança. Um dia vais e isto acaba: eis tudo o que preciso para me levantar quando a manhã me pede renúncia. No momento em que te amo (as rugas das tuas mãos, a agressividade sexual da tua barba em mim, o diálogo de dois corpos à procura das palavras impossíveis) todos os abismos se sabem abrir. Sei que vou morrer de ti mas sei que sem ti só me falta mesmo morrer.
Aprendo todos os dias a ser analfabeta de ti.
E não escrevo senão o silêncio, ou então as linhas enchem-se do que não tem ordem, e se há caos que seja o do nosso suor entornado. Depois ensinas-me, com paciência e método, que há que saber muito para estar à altura de ignorar o que nos une, e que todos os abraços são uma aprendizagem. Morre-se no segundo em que já não há mais abraços para aprender, mais linhas desordenadas para ocupar. Exijo as tuas mãos em mim como no inferno, à espera do chamamento final de uma cólera consentida. Ordeno-te que me mantenhas desordenada para sempre. E que o único mandamento seja o que nos obriga a pecar.
O mais importante do mundo é o que mesmo proibido pode ser feito."
Pedro Chagas Freitas

