“Chega o teu beijo e todas as desilusões se apagam.
Sonhámos com a vida perfeita. Havia a casa perfeita em frente ao mar perfeito, o emprego perfeito com o sucesso perfeito, e os filhos chegariam quando tudo estivesse pronto para os receber (quando se está pronto para receber um filho?). Na vida que imaginámos só havia o espaço para que o abraço se juntasse, a cama seria para que todos os amores se acontecessem, na sala seríamos rei e rainha de um reino que nem Deus conseguiria criar tão grande.
O que dói na vida é a puta da verdade.
As putas das contas para pagar, as discussões intermináveis por causa da hipoteca ao banco, as palavras duras (todas as palavras doem quando se está dorido) que nenhum de nós quis dizer e que ainda assim disse como se fossem leis universais, as lágrimas no quarto que se queria amor e se fez muro, a separação lenta entre eu e tu e entre nós e o sonho.
Há uma quantidade de números entre nós e o sonho.
E um amor só é grande quando resiste à matemática. Um amor só é grande quando se faz inteligente, quando se adapta às ilusões perdidas, quando faz de um monte de merda um monte de tudo, quando a casa perfeita é a casa com comida, quando a cama perfeita é que a nos junta todos os dias, e quando um "amo-te" se diz nunca se pergunta quanto tem no banco.
Quando se passa pela desilusão até a rotina é uma surpresa agradável.
Acordar, levantar, trabalhar que nem uma cadela, suar que nem um cão, correr de transporte público para transporte público, sovacos, odores, até lágrima de solidões partilhadas, a chuva que cai e enche de lama, o sol que queima e esvazia de força, a vida a passar por entre o sonho e a verdade - e no final do dia o teu sorriso apertado, a tua pergunta antes do abraço: "estás bem?", e de repente estou, de repente já não sei o que dói se te tenho a sorrir-me, já não sei o que sofro se me abraças assim.
Pobres como nunca mas felizes como sempre.
E faltam trinta minutos para que um novo dia aconteça. Acordo e encontro as tuas mãos na minha pele, os teus braços a apertarem-me toda, a protegerem-me do mundo. E ali fico, trinta minutos, só a sentir que todos os sonhos se resumem a isto: um abraço apertado numa cama velha que chia. E meia hora por dia para que a ilusão aconteça.
Um dia vamos ter a felicidade perfeita, amor. Mas até lá basta-me ser feliz assim.”
Pedro Chagas Freitas
Sonhámos com a vida perfeita. Havia a casa perfeita em frente ao mar perfeito, o emprego perfeito com o sucesso perfeito, e os filhos chegariam quando tudo estivesse pronto para os receber (quando se está pronto para receber um filho?). Na vida que imaginámos só havia o espaço para que o abraço se juntasse, a cama seria para que todos os amores se acontecessem, na sala seríamos rei e rainha de um reino que nem Deus conseguiria criar tão grande.
O que dói na vida é a puta da verdade.
As putas das contas para pagar, as discussões intermináveis por causa da hipoteca ao banco, as palavras duras (todas as palavras doem quando se está dorido) que nenhum de nós quis dizer e que ainda assim disse como se fossem leis universais, as lágrimas no quarto que se queria amor e se fez muro, a separação lenta entre eu e tu e entre nós e o sonho.
Há uma quantidade de números entre nós e o sonho.
E um amor só é grande quando resiste à matemática. Um amor só é grande quando se faz inteligente, quando se adapta às ilusões perdidas, quando faz de um monte de merda um monte de tudo, quando a casa perfeita é a casa com comida, quando a cama perfeita é que a nos junta todos os dias, e quando um "amo-te" se diz nunca se pergunta quanto tem no banco.
Quando se passa pela desilusão até a rotina é uma surpresa agradável.
Acordar, levantar, trabalhar que nem uma cadela, suar que nem um cão, correr de transporte público para transporte público, sovacos, odores, até lágrima de solidões partilhadas, a chuva que cai e enche de lama, o sol que queima e esvazia de força, a vida a passar por entre o sonho e a verdade - e no final do dia o teu sorriso apertado, a tua pergunta antes do abraço: "estás bem?", e de repente estou, de repente já não sei o que dói se te tenho a sorrir-me, já não sei o que sofro se me abraças assim.
Pobres como nunca mas felizes como sempre.
E faltam trinta minutos para que um novo dia aconteça. Acordo e encontro as tuas mãos na minha pele, os teus braços a apertarem-me toda, a protegerem-me do mundo. E ali fico, trinta minutos, só a sentir que todos os sonhos se resumem a isto: um abraço apertado numa cama velha que chia. E meia hora por dia para que a ilusão aconteça.
Um dia vamos ter a felicidade perfeita, amor. Mas até lá basta-me ser feliz assim.”
Pedro Chagas Freitas
