27 de junho de 2013

«Chupem-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer.
O corpo não serve para viver; o corpo serve para amar. E há que explorar todas as veias para saber de que sangue és feito.
“Usa-me até ao impossível”, pede ela, ancas de samba ao longo do sexo obediente dele. “Ou é até ao osso ou estás à superfície”, e nunca os dedos souberam mais do que aquele dicionário inteiro, páginas e páginas de teorias incompletas.
Comam-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer.
O corpo não serve para viver; o corpo serve para comer. E há que explorar todos os paladares para saber de que prazer és feito.
“Quando vejo que vou conseguir desisto”, explica ele, olhar caído, mãos pousadas na soleira das costas. “Ou é inalcançável ou está perto demais”, e chega o minuto de descobrir tudo outra vez, a cama a desbravar-se no cutelo de um quero.
Venham-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer.
O corpo não serve para viver; o corpo serve para voar.
“O melhor de te tocar é sentir-me intocável”, define ela, respiração difícil na almofada molhada, todo o tecto e o céu total. “Abro-te as pernas para tirar os pés do chão”, e todas as impossibilidades se insurgiram, todo o divino se amotinou.
Despediram-se à procura da recordação perfeita: o orgasmo final e o amor absoluto. Melhor pareceu-lhes, ali (as mãos dedo a dedo a despregar-se, uma dor tão funda que nem as lágrimas lhe conseguem chegar), impossível.
(“Sempre que me abres as pernas sinto-me exposto”).
E era.»

Pedro Chagas Freitas