“Há a urgência de uma coragem quando se chora assim.
J. pede-me perdão e diz que não volta a acontecer. Enrola-se no cobertor, limpa as lágrimas com a parte de trás do lençol e passa a tarde a sofrer. Não digo nada, não faço nada – limito-me a ver o tempo passar e a dor alastrar.
Ninguém sabe o que é o amor.
E é o que não tem perdão que mata. Quem é amado não tem o direito de fazer o imperdoável. Amar é grande demais para aguentar uma pequenez assim. “Esquece que me odeias e ama-me até ao fim”, ouço, o peito molhado por dentro, uma mão inteira a espremer-me as entranhas.
Amo-te tanto que não te consigo perdoar.
Lá fora, um pássaro ensina-me a felicidade. Bate as asas e tudo à sua volta faz sentido.
O céu só existe para que seja possível voar.
Cá dentro ouve-se, por detrás do silêncio, o grito que gostava de dar, a liberdade que nem a garganta consegue falar. E debaixo dos lençóis J. sofre, continua a sofrer – o som das lágrimas a mostrar-me que nenhum lado do que é eterno é indolor. “Sempre que me lembro dos teus lábios esqueço-me do que me impede de ti”, e seria tão fácil deixar-me ir, outra vez o abraço, outra vez a fé, outra vez todas as religiões da vida no altar de dois corpos. “Cura-me de não te ter ou mata-me de uma vez”, diz-me, todos os meus músculos já no abraço dela apesar de só os olhos ainda a tocarem.
É através dos olhos que todo o perdão acontece.
Não há qualquer fundamento para te deixar entrar depois da devassidão que deixaste para trás. Todas as sondagens te recusam, todos os inquéritos te abominam, todas as fórmulas te dizem impossível. Sei que se voltares toda esta dor pode voltar um dia. Mas sei que se não voltares toda esta dor vai voltar todos os dias.
Não tenho motivos para te deixar entrar mas entra por favor.
E todos os “ai” se dizem agora, todos os “amo-te” se ouvem sem que nenhuma palavra se consiga contar, eu e os nossos fantasmas a dizermos a linguagem dos incapazes, a caminharmos pelo pecado de nos sentirmos sem pernas e de só assim conseguirmos andar. “Fala baixo para que o mundo não saiba que não está à nossa altura”, e adormecemos assim, murmúrios escondidos no interior dos lençóis, à espera de que ninguém saiba que voltámos a ser incompreensíveis.
Ninguém entende o que nos juntou mas é ainda estarmos juntos que é inexplicável.”
J. pede-me perdão e diz que não volta a acontecer. Enrola-se no cobertor, limpa as lágrimas com a parte de trás do lençol e passa a tarde a sofrer. Não digo nada, não faço nada – limito-me a ver o tempo passar e a dor alastrar.
Ninguém sabe o que é o amor.
E é o que não tem perdão que mata. Quem é amado não tem o direito de fazer o imperdoável. Amar é grande demais para aguentar uma pequenez assim. “Esquece que me odeias e ama-me até ao fim”, ouço, o peito molhado por dentro, uma mão inteira a espremer-me as entranhas.
Amo-te tanto que não te consigo perdoar.
Lá fora, um pássaro ensina-me a felicidade. Bate as asas e tudo à sua volta faz sentido.
O céu só existe para que seja possível voar.
Cá dentro ouve-se, por detrás do silêncio, o grito que gostava de dar, a liberdade que nem a garganta consegue falar. E debaixo dos lençóis J. sofre, continua a sofrer – o som das lágrimas a mostrar-me que nenhum lado do que é eterno é indolor. “Sempre que me lembro dos teus lábios esqueço-me do que me impede de ti”, e seria tão fácil deixar-me ir, outra vez o abraço, outra vez a fé, outra vez todas as religiões da vida no altar de dois corpos. “Cura-me de não te ter ou mata-me de uma vez”, diz-me, todos os meus músculos já no abraço dela apesar de só os olhos ainda a tocarem.
É através dos olhos que todo o perdão acontece.
Não há qualquer fundamento para te deixar entrar depois da devassidão que deixaste para trás. Todas as sondagens te recusam, todos os inquéritos te abominam, todas as fórmulas te dizem impossível. Sei que se voltares toda esta dor pode voltar um dia. Mas sei que se não voltares toda esta dor vai voltar todos os dias.
Não tenho motivos para te deixar entrar mas entra por favor.
E todos os “ai” se dizem agora, todos os “amo-te” se ouvem sem que nenhuma palavra se consiga contar, eu e os nossos fantasmas a dizermos a linguagem dos incapazes, a caminharmos pelo pecado de nos sentirmos sem pernas e de só assim conseguirmos andar. “Fala baixo para que o mundo não saiba que não está à nossa altura”, e adormecemos assim, murmúrios escondidos no interior dos lençóis, à espera de que ninguém saiba que voltámos a ser incompreensíveis.
Ninguém entende o que nos juntou mas é ainda estarmos juntos que é inexplicável.”
Pedro Chagas Freitas

