Nasci em um tempo
“Nasci em um tempo em que a
maioria dos jovens haviam perdido a crença em Deus, pela mesma razão que os
seus maiores a haviam tido – sem saber porquê. E então, porque o espírito
humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa, a
maioria desses jovens escolheu a Humanidade para sucedâneo de Deus. Pertenço,
porém, àquela espécie de homens que estão sempre na margem daquilo a que
pertencem, nem vêem só a multidão de que são, senão também os grandes espaços
que há ao lado. Por isso nem abandonei Deus tão amplamente como eles, nem
aceitei nunca a Humanidade. Considerei que Deus, sendo improvável, poderia ser,
podendo pois dever ser adorado; mas que a Humanidade, sendo uma mera ideia
biológica, e não significando mais que a espécie animal humana, não era mais
digna de adoração do que qualquer outra espécie animal. Este culto da
Humanidade, com seus ritos de Liberdade e Igualdade, pareceu-me sempre uma
revivescência dos cultos antigos, em que animais eram como deuses, ou os deuses
tinham cabeças de animais.
Assim, não sabendo crer em Deus,
e não podendo crer numa soma de animais, fiquei, como outros da orla das
gentes, naquela distância de tudo a que comummente se chama a Decadência. A
Decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o
fundamento da vida. O coração, se pudesse pensar, pararia. […]
Ser pessimista É tomar qualquer
coisa como trágico, e essa atitude é um exagero e um incómodo.” […]
Fernando Pessoa

