2 de fevereiro de 2013

Intervalo doloroso

“Tudo me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha dor.
 
Quem me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra verde nos reflexos sombrios da pouca água.
 
Entre mim e a vida há um vidro ténue.
 
[…]
 
Os meus sonhos são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
 
[…]
 
Mesmo eu, o que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de quem me cerco. E todas as arestas visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objetos me pesam por a alma dentro.
 
A minha vida é como se me batessem com ela.”

Fernando Pessoa