“Tudo
me cansa, mesmo o que não me cansa. A minha alegria é tão dolorosa como a minha
dor.
Quem
me dera ser uma criança pondo barcos de papel num tanque de quinta, com um
dossel rústico de entrelaçamentos de parreira pondo xadrezes de luz e sombra
verde nos reflexos sombrios da pouca água.
Entre
mim e a vida há um vidro ténue.
[…]
Os meus sonhos
são um refúgio estúpido, como um guarda-chuva contra um raio.
[…]
Mesmo eu, o
que sonha tanto, tenho intervalos em que o sonho me foge. Então as coisas
aparecem-me nítidas. Esvai-se a névoa de quem me cerco. E todas as arestas
visíveis ferem a carne da minha alma. Todas as durezas olhadas me magoam o
conhecê-las durezas. Todos os pesos visíveis de objetos me pesam por a alma
dentro.
A minha vida é
como se me batessem com ela.”
Fernando Pessoa

