"Com a
morte, também o amor devia acabar. Ato contínuo, o nosso coração devia
esvaziar-se de qualquer sentimento que até ali nutrira pela pessoa que deixou
de existir. Pensamos, existe ainda, está dentro de nós, ilusão que criamos para
que se torne todavia mais humilhante a perda e para que nos abata de uma vez
por todas com piedade. E não é compreensível que assim aconteça. Com a morte,
tudo o que respeita a quem morreu devia ser erradicado, para que aos vivos o
fardo não se torne desumano. Esse é o limite, a desumanidade de se perder quem
não se pode perder. Foi como se me dissessem, senhor Silva, vamos levar-lhe os
braços e as pernas, vamos levar-lhe os olhos e perderá a voz, talvez lhe
deixemos os pulmões, mas teremos de levar o coração, e lamentamos muito, mas
não lhe será permitida qualquer felicidade de agora em diante."
Valter Hugo Mãe, in “A Máquina de Fazer Espanhóis”

