28 de junho de 2013

“Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti. Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis que alagamos de beijos quando eram outras horas nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa que nos meus braços pousem então as aves (que, como eu, trazem entre as penas a saudade de um verão carregado de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de arvores que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando na poeira, cuidara que são flores que o vento despiu, estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.”

Maria do Rosário Pedreira

“Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí; fiz planos de correr mundo
para te esquecer – mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele – mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou. E o quarto
ficou tão frio de repente. E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.”

Maria do Rosário Pedreira

 
 
“Porta batida não é recolhida.
E a palavra dita. Como regressar de uma palavra dita? “Desculpa.” Desculpa é um bom começo. Pode minorar os estragos, fazer com que seja possível sobreviver por sobre os cacos que a palavra dita provocou. Mas, tal como a porta batida, a palavra dita aconteceu. Existiu. Foi dita e ouvida. Foi dita e sentida. Foi dita e guardada. Pode estar num espaço contíguo ao que faz os passos, um atrás do outro, acontecerem. Mas pode também – é mesmo o máximo que cada pode fazer para aguentar por sobre a palavra dita – ser empurrada para um armazém esconso: para os calabouços do que guardamos em nós.
Porta batida.
Palavra dita.
Prás.”
 
Pedro Chagas Freitas

“Muitos são capazes de mudar o mundo. Mas muito poucos são capazes de mudar-se a si.”
 
Pedro Chagas Freitas
 
 
“Sou a pessoa mais feliz do mundo e não é por isso que deixo de ser a pessoa mais triste do mundo: aqui está uma bela declaração de amor.”
 
Pedro Chagas Freitas

“Quem ama ama. Quem ama só ama. É essa a sua missão, a sua ocupação, a sua função: amar. Sem olhar a como. Sem olhar a porquê. Aliás: geralmente amar, quando é amar, é sem porquê. É simplesmente porque é. Amar, quando começa a concentrar-se em porquês e em comos e em quandos, já não é amar. Amar racionalmente é o começo de não-amar.
Se pensas sobre como amas, quando amas e porque amas: então é porque já não amas.”
 
Pedro Chagas Freitas

“O amor é um espaço a que só ascende quem ama.
Mesmo que quem ama seja a pior das pessoas, a mais vil das criaturas, será sempre, para quem a ama, apenas isso: o ser que ama.
Amar é o Todo-Poderoso dos apagadores – o apagador que apaga tudo o que está antes ou depois de si.”
 
Pedro Chagas Freitas

“O futuro do mundo depende de encontrar um cão perdido, um gato perdido, uma pessoa perdida,
o futuro do mundo depende de encontrar todos os que estão perdidos.”
 
Pedro Chagas Freitas

“Não digas nada – a tua boca já me pertenceu
e agora tenho ciúmes das palavras. O que
disseres será um beijo pousado nos lábios de
outra mulher, dor e mais dor, traição maior
para quem acreditou que o teu amor era para
a morte. Não fales – tenho também ciúmes
da tua voz; ouvir-te é ficar só uma vez mais.”

Maria do Rosário Pedreira


“Amantes e loucos têm cérebros tão fervilhantes, tão cheios de fantasias, que superam tudo o que a fria razão pode entender.”

William Shakespeare

“Acho muito importante essa coisa genuína de tu teres um lugar que é o teu. Tu saberes que aquele é o teu lugar.
Como uma segunda pele.”

Mafalda Veiga

«Chamo-lhe silêncio mas bem que podia chamar-lhe morte.
É quando se acabam as palavras que tudo está prestes a acabar. E tu não falas. Tu deixas-te estar, deixas-te andar, olhar perdido em lugares onde não consigo chegar, em lugares que só tu consegues ver, e até do teu grito tenho saudades porque é ele que me mostra que estás vivo.
Chama-me o que quiseres mas por favor chama-me.
Está a perder-se a linguagem entre nós. Sabemos que há sofrimentos que têm de ser partilhados, histórias que têm de ser contadas, ofensas que têm de ser ditas (vale tanto uma ofensa; há momentos em que ofender quem amamos nos liberta do que nos obrigou a ofender quem amamos; vale tanto uma ofensa), e continuamos neste silêncio agressor, este silêncio que nos fala ao ouvido como se estivéssemos à porta do grito final.
Nada me ofende tanto como nem uma ofensa te merecer.
Quero que me insultes, quero que me chames puta, vaca, cabra, e teimosa e casmurra e burra e parva. Quero que me atires tudo o que tens para atirar como eu todos os dias te atiro tudo o que tenho para te atirar. E depois sei que chegará a hora de tudo isso se transformar em só isso. Palavras, meras palavras, ocas palavras (as mais belas palavras do mundo são as ocas, as que nada valem enquanto palavras, as que só existiram para que algo fugisse de dentro de nós, para que algo nos libertasse do que só as palavras sabem dizer; há palavras que nos limpam de más palavras, para que possam libertar-nos do tudo de mau que essas palavras representavam; há palavras que nada dizem mas que tudo curam), e quando todas as palavras que te doem já não estiverem por dentro do que te dói estarás pronto a amar outra vez, a amar-me de vez.
Há um muro de palavras entre nós e o silêncio.
Hoje acordei e disse-te o que tinha para dizer. Que és egoísta, egocêntrico, o ser desprezível que eu sou incapaz de desprezar.
Tenho asco de ti e amo-te tanto.
Tu sorriste, riste, viraste costas, e acabaste por te levantar e abandonar o quarto e a casa. Atrás de ti ficou a pegada de um desastre. Quero que fales e por isso não me calo. E estico a corda. Vou puxando, puxando. Vou dizendo o que não devo e não reages, e depois digo o dobro do que não devo e tu não reages, e depois o triplo ou o quadruplo ou o quíntuplo. Digo o que for preciso para te obrigar a reagir, para que me mostres que ainda existes e que ainda existo por detrás do que te faz mexer.
Se não sou capaz de te desesperar mais vale desistir de te amar.
E tenho medo (tenho tanto medo, meu amor; tudo o que faço é por medo, tudo o que digo é por medo; medo de que um dia seja de vez, medo de um dia te canses das minhas palavras e queiras ir para o interior do teu silêncio; tenho tanto medo, meu amor), tenho medo de que a corda, como todas as cordas, rebente. Medo de que um dia fales as palavras que estão amarradas ao que mata o peito. “Vou, desta vez vou”, e se ouvir isso juro que desisto para sempre das palavras e me dedico ao silêncio, como um luto eterno pelas frases que nesse instante se perderiam para sempre. Deixa-me falar-te para sempre.
Chamo-te “amor” mas bem que podia chamar-te “tudo”.
E nenhum silêncio merece doer assim.»

Pedro Chagas Freitas
 
 
Alimentar o Amor

“Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Chega-se sempre à primeira frase, ao primeiro número da revista, ao primeiro mês de amor. Cada começo é uma mudança e o coração humano vicia-se em mudar. Vicia-se na novidade do arranque, do início, da inauguração, da primeira linha na página branca, da luz e do barulho das portas a abrir.
Começar é fácil. Acabar é mais fácil ainda. Por isso respeito cada vez menos estas actividades. Aprendi que o mais natural é criar e o mais difícil de tudo é continuar. A actividade que eu mais amo e respeito é a actividade de manter.
Em Portugal quase tudo se resume a começos e a encerramentos. Arranca-se com qualquer coisa, de qualquer maneira, com todo o aparato. À mínima comichão aparece uma «iniciativa», que depois não tem prosseguimento ou perseverança e cai no esquecimento. Nem damos pela morte.
É por isso que eu hoje respeito mais os continuadores que os criadores. Criadores não nos faltam. Chefes não nos faltam. Faltam-nos continuadores. Faltam-nos tenentes. Heróis não nos faltam. Faltam-nos guardiões.
É como no amor. A manutenção do amor exige um cuidado maior. Qualquer palerma se apaixona, mas é preciso paciência para fazer perdurar uma paixão. O esforço de fazer continuar no tempo coisas que se julgam boas — sejam amores ou tradições, monumentos ou amizades — é o que distingue os seres humanos. O nascimento e a morte não têm valor — são os fados da animalidade. Procriar é bestial. O que é lindo é educar.
Estou um pouco farto de revolucionários. Sei do que falo porque eu próprio sou revolucionário. Como toda a gente. Mudo quando posso e, apesar dos meus princípios, não suporto a autoridade.
É tão fácil ser rebelde. Fica tão bem ser irreverente. Criar é tão giro. As pessoas adoram um gozão, um malcriado, um aventureiro. É o que eu sou. Estas crónicas provam-no. Mas queria que mostrassem também que não é isso que eu prezo e que não é só isso que eu sou.
Se eu fosse forte, seria um verdadeiro conservador. Mudar é um instinto animal. Conservar, porque vai contra a natureza, é que é humano. Gosto mais de quem desenterra do que de quem planta. Gosto mais do arqueólogo do que do arquitecto. Gosto de académicos, de coleccionadores, de bibliotecários, de antologistas, de jardineiros.
Percebo hoje a razão por que Auden disse que qualquer casamento duradoiro é mais apaixonante do que a mais acesa das paixões. Guardar é um trabalho custoso. As coisas têm uma tendência horrível para morrer. Salvá-las desse destino é a coisa mais bonita que se pode fazer. Haverá verbo mais bonito do que «salvaguardar»? É fácil uma pessoa bater com a porta, zangar-se e ir embora. O que é difícil é ficar. Isto ensinou-me o amor da minha vida, rapariga de esquerda, a mim, rapaz conservador. É por esta e por outras que eu lhe dedico este livro, que escrevi à sombra dela.
Preservar é defender a alma do ataque da matéria e da animalidade. Deixadas sozinhas, as coisas amarelecem, apodrecem e morrem. Não há nada mais fácil do que esquecer o que já não existe. Começar do zero, ao contrário do que sempre pretenderam todos os revolucionários do mundo, é gratuito. Faz com que não seja preciso estudar, aprender, respeitar, absorver, continuar. Criar é fácil. As obras de arte criam-se como as galinhas. O difícil é continuar.”

Miguel Esteves Cardoso
 
 
 
“A identidade, como a pele,
renova-se, perde-se de sete
em sete anos, muda no mesmo
corpo, torna diferente
a permanência humana.
A identidade é a soma
das intenções, uma foto
instantânea para um propósito
imediato que não dura.
A identidade é um equívoco
para camuflar o coração.”

Pedro Mexia


“O fundo és tu, o chão és tu. Não te vejo se não te posso tocar. Mal te toco deixo de te ver. Turva verdade, absoluta verdade. És doce e és duro. És assim: um delírio e uma alucinação. Uma única andorinha que me faz a primavera. De aço e algodão.”
 
Pedro Paixão

27 de junho de 2013

“O que nos une ainda não foi inventado. Será uma cumplicidade tesuda, uma comunhão acesa, uma paixão que se ama. O que nos une ainda não foi inventado. Gosto de pensar que nada nos apagará de nós, que nem a morte - quanto mais a vida - terá força para nos apartar. Os teus lábios de carne e fogo, a tua pele que, com a minha, se agarra ao tempo e o faz parar. E depois o suor, o gemido. E a sensação, sempre a sensação, de que, por mais que os corpos cedam e as respirações parem, algo assim não acabará. Porque só o que é eterno não acaba.”
Pedro Chagas Freitas

“Eu e tu para sempre? Como pode haver mais felicidade do que esta? Como se pode pedir mais do que isto? De que valeu o corpo que se mexe para nos unir? O que fomos nós para além da prova de que não é preciso corpos em movimento para tudo se mexer dentro de nós?”
 
Pedro Chagas Freitas

«Em que pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
Dizer “ Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?” Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor,
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
ele que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.»

Nuno Júdice
 
 
“devagar, o tempo transforma tudo em tempo.
o ódio transforma-se em tempo, o amor
transforma-se em tempo, a dor transforma-se
em tempo.
os assuntos que julgámos mais profundos,
mais impossíveis, mais permanentes e imutáveis,
transformam-se devagar em tempo.
por si só, o tempo não é nada.
a idade de nada é nada.
a eternidade não existe.
no entanto, a eternidade existe.
os instantes dos teus olhos parados sobre mim eram eternos.
os instantes do teu sorriso eram eternos.
os instantes do teu corpo de luz eram eternos.

foste eterna até ao fim.”

José Luís Peixoto


“Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa -
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa - ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.”

Maria do Rosário Pedreira


“Ainda ontem fomos imensas coisas. Tu e eu.
Um comboio a rasgar paisagens.
Um gigante de rosto caído contra a terra macia. As mãos acesas sobre as pontas molhadas das folhas. E braços longos ao nível do chão, tábuas a fazer o caminho inverso sobre o rio.

Ainda ontem fomos imensas coisas. Um comboio em força entre as paisagens.

Um inter-cidades.”

Minês Castanheira


Eu sou aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

* * *

Eu trago-te nas mãos o esquecimento
Das horas más que tens vivido, Amor!
E para as tuas chagas o ungüento
Com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento...
Trago no nome as letras duma flor...
Foi dos meus olhos garços que um pintor
Tirou a luz para pintar o vento...

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,
O manto dos crepúsculos da tarde,
O sol que é de oiro, a onda que palpita.

Dou-te, comigo, o mundo que Deus fez!
Eu sou Aquela de quem tens saudade,
A princesa de conto: "Era uma vez..."

Florbela Espanca


“Somos a carne de um fruto atordoado. Somos o dia aparatoso
nas escadas, depois navios ancorados carregados de bruma.
Bebemos o sangue dos poentes como animais incrédulos
de morrer.

Quando tens frio, risco-me como fósforo na tua pele ondu-
lada. E dá-se o acidente nas gavetas.

As tuas pernas afogam-se em poços de água, eu tenho os bra-
ços engessados numa parede violenta - porém beijamo-
-nos na boca lenta da madrugada.

O meu nome acordou povoado pelo teu nome.”

Vasco Gato


“A vida de um suor a escorrer, de um gemido em forma líquida. Ou então de uma boca sedenta. Ou dos lábios que procuram a humidade quente no por dentro de outros lábios.

- Então consome-me. Leva-me para um local de onde nunca mais conseguirei sair.
- ...
- Leva-me até ao que não acaba.

Um lugar que não acaba: aqui está uma boa definição de amor.”
Pedro Chagas Freitas

“E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.
Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.”

Fernando Pessoa


“Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão …

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.”

David Mourão-Ferreira


“Assim me perguntaste,
assim te respondi:
tudo é paixão.

Como não lamber
da tua pele, o mel
que o desejo fabrica?

E como a minha boca
não recolher o néctar
da tua boca?

Ou como não sorver
das tuas mãos o pólen
da ternura?

E se, em vez de paixão,
for sexo apenas,
ou loucura?

Pode até não ser amor.
Mas, seja o que for,
não é pior.”

Joaquim Pessoa


“No silêncio que guardo
quando partes

que escondes sob os
dedos

que se prende

que me deixa no corpo
este calor
da falta do teu corpo como sempre”

Maria Teresa Horta


“Como se da boca de um louco, há muitos anos desprovido de razão, saísse de súbito uma fórmula verbal capaz de explicar finalmente o mundo, certos encontros do acaso juntam, definitivamente, e depois de muitos anos de desespero e desencontros, um homem e uma mulher.”

Gonçalo M. Tavares

«Acreditar no destino é a mais fatal das formas de preguiça. E é uma seca. Uma valente pessegada.
Acreditar no destino é acreditar que somos meras marionetas neste palco vivo, cheio de porcaria tantas vezes, tão malcheiroso outras tantas vezes – mas tão lindo que até irrita muitas mais tantas vezes. Acreditar no destino é dizer “é a vida”, “é o que tem de ser”, “não há nada a fazer”. Mas há. Há. Há sempre algo a fazer. Há sempre tudo a fazer.
Quem acredita no destino tem o destino traçado. E só pode dar merda.
Não acreditar no destino é assumir, claramente, que só há uma entidade superior a ti: a tua vontade. Só a tua vontade te supera. Só a tua vontade te ultrapassa. E se o teu corpo e se a tua vida e tudo o que te acontece faz de ti um derrotado tens, mesmo, de apelar a forças superiores, a forças sobrenaturais. Tens, mesmo, de apelar à tua vontade, à mais profunda das tuas vontades. E erguer com ela o que houver para erguer. E deitar abaixo com ela o que tiver de ser deitado abaixo. E sim: não tenhas medo de destruir. Não acreditar no destino não é só construir; é também, muitas vezes, destruir. Sem misericórdia. Destruir. Destruir as palavras que te dizem para não ires porque pode correr mal, destruir as palavras que te dizem para não tentares porque já não tens hipótese, para não beijares porque já não tens idade, para não amares porque pode magoar. Destruir o que te impede a vontade é a primeira das construções que tens nas mãos.
O destino não é o que te vai acontecer; o destino é o que te está a acontecer.
O destino é o que te acontece quando estás a imaginar o que vai ser o teu destino. O destino não se imagina; faz-se.
Se queres ser o homem mais rico do mundo: trabalha. Se queres o homem mais amado do mundo: ama. Se queres ser o homem mais feliz do mundo: ri. Se queres ser o homem mais rápido do mundo: corre. Se queres ser o melhor escritor do mundo: escreve. Se queres ser o melhor palhaço do mundo: palhaça. Só o que te acontece faz parte do teu destino.
Só há um destino que vale a pena, um destino em que eu, teimoso que nem uma mula, acredito: o de dois corpos com duas almas dentro. O destino de quem tinha de se encontrar para que a sua vida não fosse uma busca sem fim. O destino de dois seres que, por mais voltas que dessem, por mais mundo que conhecessem, por mais distantes que estivessem, teriam de encontrar um momento de intersecção absoluta. E definitiva. Nesse destino, ó emocionante utopia, eu acredito.
E também acredito que tenho de ir, agora mesmo, beijar alguém. Pois. É o meu destino.»

Pedro Chagas Freitas

«Se morresses agora, agora mesmo, morrias feliz?
Se morresses agora, agora mesmo, serias feliz para sempre?
Aprende: o tempo não ensina nada.
A única coisa que o tempo ensina é que tens de te pôr a milhas antes de o teu tempo chegar. Ser feliz é, quase sempre, conseguir fugir do que te impede a felicidade antes de o que te impede a felicidade chegar até ti. Tens de ser mais rápido do que a dor, mais rápido do que a precisão, mais rápido do que a insuficiência. Se te falta alguma coisa: falta-te tudo. E tens de te pôr a andar de onde estás – antes que deixes de estar onde estás. E passes a estar onde não queres estar. Onde nunca quiseste estar.
Aprende: o tempo não serve para nada.
A experiência não é um posto; é um imposto. Um imposto que todos os dias tens de pagar, que todos os dias te persegue, que todos os dias te endivida. Há dívidas que só tu podes saldar. E só a felicidade é um posto. Há que ir ao fundo da chuva, ao fundo das lágrimas. Há que perceber que não há momentos felizes – que só há momentos felizes. Agendar a felicidade é matar a felicidade. Dizer “amanhã vou ser feliz” é o mesmo que dizer “agora não sou feliz”. Dizer “ontem fui feliz” é o mesmo que dizer “agora não sou feliz”. Nunca se foi feliz; a felicidade não é um nome comum – nem sequer é um nome. A felicidade é um verbo. E só se conjuga no presente.
Aprende: a única urgência é a do orgasmo.
Há quem lhe chame outras coisas. Mas tudo o que te faz feliz é um orgasmo. Sem um orgasmo, uma hora vivida é uma hora perdida. Todos os minutos merecem um orgasmo. Procura-o. Obsessivamente procura-o. Exige-o. Orgulhosamente exige-o. E nenhum lugar está a salvo de um orgasmo. Se estás tu e o mundo: então podes estar tu e um orgasmo. Basta tu e o mundo para um orgasmo. Tu e o mundo são todo o teu mundo. Tu e o mundo e um orgasmo: eis tudo o que a vida te pode oferecer.
Aprende: não é em “foi bom” que se conta a vida; é em “foi tudo”.
E tu: há quanto tempo não tens tudo?»

Pedro Chagas Freitas
 
 
“Estou preso às palavras
mas olho à volta
ainda.

Fico pelo frio
limiar das coisas
até quando
as pedras
deixarem de sonhar.”

Artur do Cruzeiro Seixas


“Para fazer amor é preciso mais, muito mais, do que despir o corpo. É preciso despir o ser até à inocência. E entregarmo-nos nus, despidos do mundo e sem medo de perder a alma.”

João Morgado

“Tenho a tua ausência debaixo dos lençóis.
É ela que aperto nas noites em dói mais, nas noites que não passam, nas noites em que a lua ataca (a lua a encher e por debaixo dela o vazio; que interessa o tamanho da lua se não estás aqui para a ver?) por sobre o chão e as marcas dos teus pés vadios.
E até o silêncio sabe dialogar.
Nenhum corpo define se estamos ou não juntos. A nossa presença estabelece-se por parâmetros que a matéria não compreende (como pode algo corpóreo entender o que não tem representação senão dentro do ar que respiramos?), e a geografia é esoterismo quando se ama assim.
Havia que inventar novos mapas para nos poder encontrar.
A sala do nosso prazer cheira ao suor que nos deitámos, a mágoa tresanda por todos os cantos, e na televisão todas as mulheres têm o teu corpo, todos os homens são eu quando te olham. Sinto que o diabo nos inveja, por tudo isto ser tão pouco e ainda assim matar. Nada dói tanto como saber que estou a milhões de passos de ti e ainda assim te poder tocar.
Que nome se dá à masturbação quando inclui o meu sexo no teu?
As pessoas são facas moventes (até a alma sabe sangrar), e as casas onde trocámos sonhos por impossibilidades são feitas de rugas e de derrota.
Quantas putas vale um beijo teu?
Sei o nome do homem que te agarra os braços todas as noites, nas quatro paredes que preferiste construir (talvez para saberes ainda mais que entre eu e tu só pode haver espaço aberto, e que nenhum muro nos impede o abraço); quando a saudade aperta fecho os olhos e vou pelas ruas à procura do teu sabor, nas esquinas onde o velho gagá que um dia nos disse que íamos morrer amarrados insiste em tratar-me no plural. “Ficam bem juntos”, diz-me. E eu tenho a certeza de que no meio disto tudo os malucos são os outros, os que teimam em ver no meu corpo sozinho contigo ao lado apenas um homem solitário. “Eu bem disse que iam ficar juntos para sempre”, repete-me ele, e pede o cigarro de sempre e o aperto de mão de sempre. “A menina tem a mão mais humana do mundo”, repete-te (a tua cara quando ele to disse pela primeira vez: a humanidade fede nas mãos, tu sabes) enquanto agarra a minha mão e sente nela o peso da tua. E por entre o nevoeiro de tijolos onde te escondes estará, nesse instante, uma boca e um beijo à minha espera.
Amo-te e nenhum quilómetro pode ser usado em legítima defesa.
Prefiro não te ter do que te perder.”

Pedro Chagas Freitas

“Dizes que me amas de uma tal forma,
que não consigo deixar de corar;
que me amas de um modo primitivo,
sem razão aparente e sem desculpas
e que me amas porque me desejas,
porque sabes que eu também te amo
e como o monstro deste amor nos devora
a alma, a paciência e as maneiras.
É uma pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.”

Amalia Bautista


Amei-te desde o princípio do tempo

“Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós, a acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez, todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento. Todas as raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor fora do tempo e do espaço, como se só na tua pele a minha fosse lume. Quando é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar, para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viciados num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida. Respiração boca a boca, ar incandescente. Como se fosse inesgotável e nos invadisse a boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso infinito. Foi há sete anos, meu amor.”

Fernando Pinto Amaral

«Houve um tempo em que, nos amores e nas paixões, se falhava de forma espectacular. Com baba e ranho. Dava-se tudo. Saíamos rasgados de pele e coração. Valia sempre a pena, mesmo quando perdíamos o chão.

Os erros, as faltas, as vertigens, o pé à beira do abismo existiam para nos lembrarmos de que somos humanos. A regra era cair e levantar, prontos para outra depois de lutos intensos, sofridos, partilhados. Agora tudo isso existe sob a forma de prevenção. Para nos lembrarmos do que não devemos fazer, dos riscos que não devemos correr, contra o vírus da solidão.

Fomos ficando higienizados. Da alma à cama. Uma espécie de “se conduzir, não beba” para evitar os males do coração. Como se pudéssemos dizer “se amar, não se magoe”.

Com o passar dos anos, aprendemos a contornar os sintomas a bem da decência, da pose e da anestesia geral ou local, conforme as necessidades. O importante é não dar parte de fracos.
O ciúme é uma coisa moderna, para ser compreendida. A discussão acalorada está fora de moda.
A vingança é um prato que não se serve frio nem quente nas relações mais conceituadas. É coisa do povo, ementa de vidas de tasco, entre um tiro de caçadeira e um facalhão de meter respeito.

O civismo entrou definitivamente na nossa intimidade para amansar os corpos, os gestos, as palavras. A postura é um fato de pronto-a-vestir que usamos para entrar e sair das relações. Talvez até já nem se rasguem roupas quando chega a hora. O sentimento não ferve, a aprendizagem das loucuras que fizemos é renegada e a história do que fomos não tem disco duro porque a caixa de mensagens é mais prática e descartável. De resto, já não há cartas para guardar porque ninguém as escreve. Quem as leria, de resto, se tivessem mais de 140 caracteres?

Como num poema do Eugénio, já não há nada que nos peça água. E estamos como ela: insípidos, inodoros e incolores. Leves. Capazes de ir do tudo ou nada sem efusão de sangue. Deve andar a escapar-nos o momento em que deixamos de olhar a vida nos olhos e a desregrada infinidade de coisas que vinha junto com ela.»

Miguel Carvalho
 
 
“Acordei um dia dentro dos teus olhos
de um sono leve e tranquilo, tumultuoso e denso.
Dizem que devo ter sonhado, mas nem ecos
de palavras, franjas de luz, neblina,
vaga escadaria, túnel infinito
me chegam aos recantos da memória.

Acordei a amar-te dentro dos teus olhos,
a hora indefinida,
em silêncio, deslumbrado.

Só depois veio o sonho.”

Mário Domingos


«Chupem-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer.
O corpo não serve para viver; o corpo serve para amar. E há que explorar todas as veias para saber de que sangue és feito.
“Usa-me até ao impossível”, pede ela, ancas de samba ao longo do sexo obediente dele. “Ou é até ao osso ou estás à superfície”, e nunca os dedos souberam mais do que aquele dicionário inteiro, páginas e páginas de teorias incompletas.
Comam-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer.
O corpo não serve para viver; o corpo serve para comer. E há que explorar todos os paladares para saber de que prazer és feito.
“Quando vejo que vou conseguir desisto”, explica ele, olhar caído, mãos pousadas na soleira das costas. “Ou é inalcançável ou está perto demais”, e chega o minuto de descobrir tudo outra vez, a cama a desbravar-se no cutelo de um quero.
Venham-se uns aos outros: eis o que um Deus de verdade deveria dizer.
O corpo não serve para viver; o corpo serve para voar.
“O melhor de te tocar é sentir-me intocável”, define ela, respiração difícil na almofada molhada, todo o tecto e o céu total. “Abro-te as pernas para tirar os pés do chão”, e todas as impossibilidades se insurgiram, todo o divino se amotinou.
Despediram-se à procura da recordação perfeita: o orgasmo final e o amor absoluto. Melhor pareceu-lhes, ali (as mãos dedo a dedo a despregar-se, uma dor tão funda que nem as lágrimas lhe conseguem chegar), impossível.
(“Sempre que me abres as pernas sinto-me exposto”).
E era.»

Pedro Chagas Freitas
 
 
"Inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
Uma parede de textura suave.
Uma parede única,
onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor."

Silvia Chueire


“encosto a face à parede
mais triste do quarto, fiel
guardiã do sol posto.

o coração que me deixaste
é uma casa difícil de habitar.”

Renata Correia Botelho


“Quando partires
se partires
terei saudades
e quando ficares
se ficares
terei saudades

Terei
sempre saudades
e gosto assim”

Adília Lopes


“É um abraço real. Daqueles que apertam muito mais por dentro do que fora. Daqueles que nos agarram pela barriga e nos revolvem cada pedaço do que somos. Um abraço que não se aperta com os braços. Um abraço que se aperta com as vísceras.
Todos os abraços se apertam com as vísceras.”

Pedro Chagas Freitas
 
 
Contigo, Comigo

“Como contigo
Eu chego a mim!

Como me trazes
A esfera imensa
Do mundo meu
E toda a encerras
Dentro de mim!

Como contigo
Eu chego a mim!
Ah como pões
Dentro de mim
A flor, a estrela,
O vento, o sol,
A água, o sonho!…

Como contigo
Eu chego a mim!”

Manuel Bandeira


“A mão que esconde mais do que oferece,
os olhos de presa dominando o caçador.
E os teus lábios que murmuram a prece
de quem só reza no instante do amor.

E se falasse dos teus olhos, dos teus braços
desse corpo em que me perco e te ganho,
não mais acabaria o que tem de acabar;

uma respiração de suspiros e de abraços
neste canto em que és tudo o que eu tenho,
nesta viagem em que não tem fundo o mar.”

Nuno Júdice


“Quantas facas tem o teu não?
Como uma puta de uma desesperada aqui continuo, à espera de que venhas, à espera de que digas “amo-te”, à espera de que digas ”amo-te e sempre te amei e vou amar-te para sempre”. Mas a única coisa que é para sempre é o que acaba. Acabou-se e é para sempre. Para sempre sem o sabor do teu beijo outra vez, para sempre sem o “estou-me a vir” do teu toque outra vez. O que nunca acaba é amar-te assim.
Quantos homens serão necessários para me esquecer do teu abraço?
Sou uma mulher desejável. Sei que sim. Sei que os homens passam e olham, e eu passo e eles olham, e que nunca o meu corpo restará só, sem a presença de corpos para conhecer. Mas nenhum corpo cancela o teu, nenhum cheiro me impede da memória do teu, braços nenhuns me apertam com a forma do teu abraço. O que mais me custa é saber que exististe. E que depois de te querer assim o que me resta é ser querida.
Resta-me encontrar o que mais me ama depois de ter perdido quem amo.
Até a tua morte me faria bem. Perdoa-me o egoísmo mas às vezes sonho que morres e me libertas da esperança. Enquanto estiveres vivo vou acreditar. Por mais que não acredite, por mais que saiba que não existe o que esperei que existisse. Por mais que não me queiras vou sonhar contigo, no recanto mais esconso do que sou, na esquina mais fétida do que sinto. Tenho-me nojo de te precisar assim. Tenho vergonha de te precisar assim. E basta um “anda” teu para todos os lugares fazerem sentido.
Posso dar usufruto a outros mas sou tua propriedade inalienável.
Quem me quiser tem de o saber. Quem me quiser tem de estar pronto a perder-me como eu estou pronta a ganhar-te. Sou de quem me quiser mais até que tu me queiras nem que apenas um bocadinho. Nada é mais injusto de que amar assim. E no entanto nada é tão belo como amar assim. Seríamos perfeitos se me quisesses um terço do que te quero, se me desejasses um quinto do que te desejo. Assim somos apenas um casal por ser, e eu a estúpida mulher que se vai oferecendo ao volátil à espera da aparição do que nunca termina.
Quantas vezes terei de morrer para te matar de mim?
Se não tivesse sido tua naquela noite jamais teria sabido o que era ser infeliz assim; mas também jamais teria sabido o que é ser feliz até ao princípio dos ossos. Deste-me, nessa noite em que me curvei perante a felicidade, a melhor noite da minha vida e todas as piores noites da minha vida que se lhe seguiram. Só me arrependo de não te ter amado mais tarde, muito mais tarde, bem junto à última curva. Para que acabar fosse assim. Para sempre assim. Eu e tu e a noite final.
Quantas vidas vale uma noite assim?”

Pedro Chagas Freitas
 
 
“Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.”

Eugénio de Andrade



“Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;



É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?”

Luís Vaz de Camões
 

 

26 de junho de 2013

“Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais”

Ruy Belo


“Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.”

Ana Teresa Silva