"Dedos frágeis nas veias imundas
Tropel de sabores na carne...
Que cede
Sedenta
Os meus olhos cansados
A tua pele moída
Os caminhos fecundos
De te precisar
Mãos de morte
Pequena morte
No choque de uma novela a dois
Na mágoa de uma viagem
Não viajada
Fui-te amigo, irmão, companheiro
E ficaram os anéis
Por fora dos dedos
Sem dedos
Molhei-me de ti, sequei-me de mim
Cansei-me de nós
E fiquei, aqui
Onde os teus olhos não chegam
Onde a tua voz não ascende
Aqui: onde percorro
A despedida de um abraço
Não acredito na canção
Não acredito no regresso
Sou prazer por receber
Orgasmo por oferecer
Sou luz de um Outono caído
Sol de um Inverno ferido
Sou instrumento de cordas rotas
Chuva que cai sem água
Sou
Sou
E rastejo, e sangro, e peregrino
E aguento os joelhos feridos
E os braços cortados
E aguento as rugas cansadas
E os véus despidos
E no abraço que me deixaste
Lá
Apenas lá
Me sou
Me sou-te
Não, não susterei o que me enrouquece
Não, não calarei o que me assedia
Não, não negarei o que me erige
Serei vândalo da minha loja
Arfar do meu respirar
Faca do meu despedir
Serei o que é o que tu és
Dentro do que sou
Serei o que ficou do que fica
De quem parte
Serei somente o apenas
Que só és
O só que somente és
Serei o teu tato, o teu ouvir
O teu degustar, o teu falar
O teu cheirar
Serei o que não és
Porque só sou
O que ainda consegues ser
E restam os restos
Cinzas de palavras ditas
Fogos de palavras por dizer
Restam os restos de uma cama
Suada
Restam os restos de gemidos
Gritados
Restam os restos de líquidos
Trocados
E tudo se redime
Neste templo de odores
Tudo se acaba
Nesta seita de sabores
Tudo é o que ficou
Tudo é o que te ficaste."

