28 de janeiro de 2013

NO LUGAR ONDE TE FICASTE


"Dedos frágeis nas veias imundas

Tropel de sabores na carne...

Que cede

Sedenta

Os meus olhos cansados

A tua pele moída

Os caminhos fecundos

De te precisar

Mãos de morte

Pequena morte

No choque de uma novela a dois

Na mágoa de uma viagem

Não viajada

Fui-te amigo, irmão, companheiro

E ficaram os anéis

Por fora dos dedos

Sem dedos


Molhei-me de ti, sequei-me de mim

Cansei-me de nós

E fiquei, aqui

Onde os teus olhos não chegam

Onde a tua voz não ascende

Aqui: onde percorro

A despedida de um abraço

Não acredito na canção

Não acredito no regresso

Sou prazer por receber

Orgasmo por oferecer

Sou luz de um Outono caído

Sol de um Inverno ferido

Sou instrumento de cordas rotas

Chuva que cai sem água

Sou

Sou

E rastejo, e sangro, e peregrino

E aguento os joelhos feridos

E os braços cortados

E aguento as rugas cansadas

E os véus despidos

E no abraço que me deixaste


Apenas lá

Me sou

Me sou-te

Não, não susterei o que me enrouquece

Não, não calarei o que me assedia

Não, não negarei o que me erige

Serei vândalo da minha loja

Arfar do meu respirar

Faca do meu despedir

Serei o que é o que tu és

Dentro do que sou

Serei o que ficou do que fica

De quem parte

Serei somente o apenas

Que só és

O só que somente és

Serei o teu tato, o teu ouvir

O teu degustar, o teu falar

O teu cheirar

Serei o que não és

Porque só sou

O que ainda consegues ser

E restam os restos

Cinzas de palavras ditas

Fogos de palavras por dizer

Restam os restos de uma cama

Suada

Restam os restos de gemidos

Gritados

Restam os restos de líquidos

Trocados

E tudo se redime

Neste templo de odores

Tudo se acaba

Nesta seita de sabores

Tudo é o que ficou

Tudo é o que te ficaste."

Pedro Chagas Freitas