28 de janeiro de 2013

“Sempre amei por palavras muito mais

do que devia

são um perigo

as palavras

quando as soltamos já não há

regresso possível

ninguém pode não dizer o que já disse

apenas esquecer e o esquecimento acredita

é a mais lenta das feridas mortais

espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo

e vai cortando a pele como se um barco

nos atravessasse de madrugada

e de repente acordamos um dia

desprevenidos e completamente

indefesos

um perigo

as palavras

mesmo agora

aparentemente tão tranquilas

neste claro momento em que as deixo em desalinho

sacudindo o pó dos velhos dias

sobre a cama em que te espero”
 
Alice Vieira [in O que Dói às Aves, Caminho, 2009]