“ A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa desencaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.”
Fernando Pessoa31 de janeiro de 2013
"A realidade não é o que acontece à tua volta. A realidade é o que te acontece à tua volta.
Se adoras sol e está a chover, tens duas possibilidades: ficar deprimido e triste e escurecido por dentro porque está a chover e adorares sol; ou passares a adorar chuva e ficares feliz por estar a acontecer algo de que gostas tanto. Não há, na essência, acontecimentos potenciadores de só dor e acontecimentos potenciadores de só felicidade. No limite: não há acontecimentos potenciadores do que quer que seja. És tu quem potencia ou despotencia os acontecimentos que te acontecem. Os acontecimentos não acontecem sobre ti – os acontecimentos acontecem sob ti. Tudo o que acontece acontece-te. Porque só acontece depois de te ter acontecido. Se não te aconteceu: não aconteceu. Se ganhaste o Euromilhões e nunca soubeste que ganhaste o Euromilhões: nunca ganhaste o Euromilhões. Se nunca ganhaste o Euromilhões e acreditas que ganhaste o Euromilhões: ganhaste o Euromilhões. Agora pensa: ganhar o Euromilhões é sentir ganhar o Euromilhões. É sentires, dentro de ti, o Euromilhões. Não são as notas que te fazem feliz, não é a vitória que te faz feliz. És tu quem te faz feliz. És tu o teu Euromilhões. É bom que apostes, todas as semanas da tua vida, todos os dias da tua vida, tudo o que tens em tudo o que és. Porque és tu tudo o que tens."
Pedro Chagas Freitas
28 de janeiro de 2013
“Não me peças palavras, nem baladas, nem expressões, nem alma. Abre-me o
seio, deixa cair as pálpebras pesadas, e entre os seios me apertes sem receio.
Na tua boca sob a minha, ao meio, nossas línguas se busquem, desvairadas. E
que os meus flancos nus vibrem no enleio das tuas pernas ágeis e delgadas.
E em duas bocas uma língua... — unidos, nós trocaremos beijos e gemidos,
sentindo o nosso sangue misturar-se.
Depois... — abre os teus olhos, minha amada! Enterra-os bem nos meus; não
digas nada. Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!”
José Régio
"Os poemas não se escrevem: vivem-se.
Há um poema a cada boca que se beija. Há um instante de génio a cada instante em que um humano é feliz. E todos os instantes são geniais – porque todos os instantes são felizes. Todos os instantes são felicizáveis: passíveis de serem transformadosem
felicidade. Todos os instantes – é por isso que a medição de
instante existe (é por isso, até, que a própria denominação de instante existe)
– são para ser felizes. A felicidade é um instante, sim. Todo o instante. A
todo o instante há um motivo para a felicidade. Até porque a única felicidade é
a que não tem motivo."
Há um poema a cada boca que se beija. Há um instante de génio a cada instante em que um humano é feliz. E todos os instantes são geniais – porque todos os instantes são felizes. Todos os instantes são felicizáveis: passíveis de serem transformados
NO LUGAR ONDE TE FICASTE
"Dedos frágeis nas veias imundas
Tropel de sabores na carne...
Que cede
Sedenta
Os meus olhos cansados
A tua pele moída
Os caminhos fecundos
De te precisar
Mãos de morte
Pequena morte
No choque de uma novela a dois
Na mágoa de uma viagem
Não viajada
Fui-te amigo, irmão, companheiro
E ficaram os anéis
Por fora dos dedos
Sem dedos
Molhei-me de ti, sequei-me de mim
Cansei-me de nós
E fiquei, aqui
Onde os teus olhos não chegam
Onde a tua voz não ascende
Aqui: onde percorro
A despedida de um abraço
Não acredito na canção
Não acredito no regresso
Sou prazer por receber
Orgasmo por oferecer
Sou luz de um Outono caído
Sol de um Inverno ferido
Sou instrumento de cordas rotas
Chuva que cai sem água
Sou
Sou
E rastejo, e sangro, e peregrino
E aguento os joelhos feridos
E os braços cortados
E aguento as rugas cansadas
E os véus despidos
E no abraço que me deixaste
Lá
Apenas lá
Me sou
Me sou-te
Não, não susterei o que me enrouquece
Não, não calarei o que me assedia
Não, não negarei o que me erige
Serei vândalo da minha loja
Arfar do meu respirar
Faca do meu despedir
Serei o que é o que tu és
Dentro do que sou
Serei o que ficou do que fica
De quem parte
Serei somente o apenas
Que só és
O só que somente és
Serei o teu tato, o teu ouvir
O teu degustar, o teu falar
O teu cheirar
Serei o que não és
Porque só sou
O que ainda consegues ser
E restam os restos
Cinzas de palavras ditas
Fogos de palavras por dizer
Restam os restos de uma cama
Suada
Restam os restos de gemidos
Gritados
Restam os restos de líquidos
Trocados
E tudo se redime
Neste templo de odores
Tudo se acaba
Nesta seita de sabores
Tudo é o que ficou
Tudo é o que te ficaste."
"O
amor e a obsessão dormem na mesma cama, às mesmas horas; têm os mesmos hábitos,
os mesmos desejos, as mesmas ansiedades, os mesmos medos, as mesmas angústias,
as mesmas formas de ser; o que decide qual deles acorda primeiro é apenas o
barulho que vem de fora – por vezes, há barulhos que inquietam a obsessão e a
fazem saltar de mansinho, sem o amor ouvir; outras vezes há barulhos
impercetíveis para a obsessão mas que o amor ouve; é esse o amor feliz: um amor
que consegue acordar, caminhar, existir, sem ter a companhia da obsessão."
Pedro Chagas Freitas, in " Gotas de Dor"
Pedro Chagas Freitas, in " Gotas de Dor"
PARA EU APRENDER A ESTAR SÓ
Vergílio Ferreira, in “Cartas a Sandra”
“Porque curiosamente, onde menos te encontro é onde tu
exististe.
Desprendeste-te donde estiveste e é em mim que mais me
acontece tu estares. Mas nem sempre. Quantos dias se passam sem tu apareceres.
E às vezes penso que é bom que assim seja para eu aprender a estar só. Mas de
outras vezes rompes-me pela vida dentro e eu quase sufoco com a tua presença.
Ouço-te dizer o meu nome e eu corro ao teu encontro e digo-te vai-te, vai-te
embora. Por favor. E eu sinto-me logo tão infeliz. E digo-te não vás. Fica.
Para sempre. Há em mim uma luta entre o desejo de que te esqueça e o de
endoidecer contigo.”
Vergílio Ferreira, in “Cartas a Sandra”
“Sempre amei por palavras muito mais
Alice Vieira [in O que Dói às Aves, Caminho, 2009]
do que devia
são um perigo
as palavras
quando as soltamos já não há
regresso possível
ninguém pode não dizer o que já disse
apenas esquecer e o esquecimento acredita
é a mais lenta das feridas mortais
espalha-se insidiosamente pelo nosso corpo
e vai cortando a pele como se um barco
nos atravessasse de madrugada
e de repente acordamos um dia
desprevenidos e completamente
indefesos
um perigo
as palavras
mesmo agora
aparentemente tão tranquilas
neste claro momento em que as deixo em desalinho
sacudindo o pó dos velhos dias
sobre a cama em que te espero”
Alice Vieira [in O que Dói às Aves, Caminho, 2009]
SAUDADE FALA PORTUGUÊS
Eu tenho saudades de tudo o que marcou a minha vida:
Quando vejo retratos, quando sinto cheiros,
Quando escuto uma voz, quando me lembro do passado,
Eu sinto saudades…
Sinto saudades de amigos que nunca mais vi,
De pessoas com quem não mais falei ou cruzei…
Sinto saudades da minha infância,
Do meu primeiro amor, do meu segundo, do terceiro,
Do penúltimo, e daqueles que ainda vou vir a ter,
Se Deus quiser…
Sinto saudades do presente, que não aproveitei de todo,
Lembrando do passado e apostando no futuro…
Sinto saudades do futuro, que se idealizado,
Provavelmente não será do jeito que eu penso que vai ser…
Sinto saudades de quem me deixou e de quem eu deixei,
De quem disse que viria e nem apareceu;
De quem apareceu correndo, sem tempo de me conhecer direito,
De quem eu nunca vou ter oportunidade de conhecer.
Sinto saudades dos que se foram
E de quem não me despedi direito,
Daqueles que não tiveram como me dizer adeus;
De gente que passou na calçada contrária da minha vida
E que só enxerguei de vislumbre;
De coisas que eu tive e de outras que não tive, mas quis muito ter;
De coisas que nem sei como existiram, mas que se soubesse,
De certo gostaria de experimentar;
Quantas vezes tenho vontade de encontrar não sei o quê,
Não sei onde,
Para resgatar alguma coisa que nem sei o que é
E nem onde perdi…
Vejo o mundo girando e penso que poderia estar
Sentindo saudades em japonês,
Em russo, em italiano, em inglês,
Mas que minha saudade,
Por eu ter nascido brasileiro,
Só fala português embora, lá no fundo, possa ser poliglota.
Aliás, dizem que se costuma usar sempre a língua pátria,
Espontaneamente, quando estamos desesperados,
Para contar dinheiro, fazer amor e declarar sentimentos fortes,
Seja lá em que lugar do mundo estejamos.
Eu acredito que um simples “I miss you”,
Ou seja, lá como possamos traduzir saudade
Em outra língua, nunca terá a mesma força
E significado da nossa palavrinha.
Talvez não exprima, corretamente,
A imensa falta que sentimos de coisas ou pessoas queridas.
E é por isso que eu tenho mais saudades…
Porque encontrei uma palavra para usar
Todas as vezes que sinto este aperto no peito,
Meio nostálgico meio gostoso,
Mas que funciona melhor do que um sinal vital
Quando se quer falar de vida e de sentimentos.
Ela é a prova inequívoca de que somos sensíveis,
De que amamos muito do que tivemos e lamentamos as coisas boas
Que perdemos ao longo da nossa existência…
Sentir saudade é sinal de que se está vivo!
Antônio Carlos Affonso dos Santos
O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO
O que há em mim é sobretudo cansaço
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto alguém.
Essas coisas todas -
Essas e o que faz falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada -
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço.
Íssimo, íssimo. íssimo,
Cansaço...
Álvaro de Campos
23 de janeiro de 2013
"Há dias em que apetece gritar. Dias em que apetece amar. Dias em que apetece odiar. Dias em que apetece, em suma, viver. E há dias em que não apetece: gritar, amar, odiar. Em suma: (não) viver. Tudo é uma questão de dias – uma questão de tempo. De tempos. Há tempo para tudo, sim. Sobretudo para sentir que não há tempo para nada."
Pedro Chagas Freitas, in "Só os feios é que são fiéis"
"Ser anjo é uma monstruosidade.
Quem quer passar pela vida sem pecar quer passar pela água sem se molhar. Quem quer passar pela vida sem pecar quer passar pelo sexo sem orgasmar. Passar pela vida sem pecar é passar pela vida sem viver. Quem quer ser anjo é um monstro da pior espécie. Uma abominável criatura. Ser anjo é uma coisa diabólica. Deus nos livre de quem quer ser anjo."
Quem quer passar pela vida sem pecar quer passar pela água sem se molhar. Quem quer passar pela vida sem pecar quer passar pelo sexo sem orgasmar. Passar pela vida sem pecar é passar pela vida sem viver. Quem quer ser anjo é um monstro da pior espécie. Uma abominável criatura. Ser anjo é uma coisa diabólica. Deus nos livre de quem quer ser anjo."
Pedro Chagas Freitas
Subscrever:
Comentários (Atom)

























