“Amei-te muito, sim, amei-te desde o princípio do
tempo, desde que o mundo começou a ser mundo: revelação total, febre secreta a
iluminar o corpo, a abrir caminhos que mais ninguém conhecera antes de nós, a
acender-te no sexo mais do que o sexo, a percorrer em ti, pela primeira vez,
todos os corpos de todas as mulheres que desejara até esse momento. Todas as
raparigas que nunca possuíra, todas subitamente concentradas em ti, nesse amor
fora do tempo e do espaço, como se só na ...tua pele a minha fosse lume. Quando
é assim, não vale a pena perguntar nada ou iludir o destino com as armadilhas
da razão: estavas ali e tudo se explicava, numa lógica cega cuja certeza não
admitia hesitações. Por isso nos pareceu tão natural esse amor infinitamente
maior do que todos os pequenos sonhos que a sociedade nos ensina a cultivar,
para que todos os afectos se meçam por uma escala humana. A nossa paixão não se
comportava assim, sempre foi muito mais do que humana, fazia-nos atravessar o
vazio do mundo como se cada um dos nossos passos pressentisse o abismo e ao
mesmo tempo o ignorasse. Foi há sete anos que nos apaixonámos, unidos por um
mistério sem medida real, fieis a essa voz omnisciente que nos falava, viciados
num oxigénio que respirávamos um do outro para nos salvar a vida. Respiração
boca a boca, ar incandescente. Como se fosse inesgotável e nos invadisse a
boca, a garganta, os pulmões cheios de sol, nas madrugadas que passávamos
dentro do carro, um com o outro e um no outro, cada noite mais perto do nosso
infinito. Foi há sete anos, meu amor.”
Fernando Pinto Amaral
Fernando Pinto Amaral

