Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter
vergonha. Momentos que o fim torna ridículos. A felicidade, como o amor, é um
sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista
de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si
própria. A felicidade são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes
do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser
feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido. E nem a
forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm a forma de
nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios
têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com
toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave
ou de criança. Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver,
esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os
arrependimentos e fracassos, em que se possam viver de novo, para de novo
chegar ao fim e de novo a esperança e de novo o fim. Não se deve ter vergonha
de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter
sido feliz por momentos.
José Luís Peixoto

