26 de junho de 2014

Já não tenho paciência para algumas coisas, não porque me tenha tornado arrogante, mas simplesmente porque cheguei a um ponto da minha vida em que não me apetece perder mais tempo com aquilo que me desagrada ou fere. Já não tenho pachorra para cinismo, críticas em excesso e exigências de qualquer natureza. Perdi a vontade de agradar a quem não agrado, de amar quem não me ama, de sorrir para quem quer retirar-me o sorriso. Já não dedico um minuto que seja a quem me mente ou quer manipular. Decidi não conviver mais com pretensiosismo, hipocrisia, desonestidade e elogios baratos. Já não consigo tolerar eruditismo selectivo e altivez académica. Não compactuo mais com bairrismo ou coscuvilhice. Não suporto conflitos e comparações. Acredito num mundo de opostos e por isso evito pessoas de carácter rígido e inflexível. Desagrada-me a falta de lealdade e a traição. Não lido nada bem com quem não sabe elogiar ou incentivar. Os exageros aborrecem-me e tenho dificuldade em aceitar quem não gosta de animais. E acima de tudo já não tenho paciência nenhuma para quem não merece a minha paciência.

José Micard Teixeira

24 de junho de 2014

Nenhum crítico sabe amar, porque exige do amor aquilo que nem ele próprio consegue dar. Nenhum queixoso sabe amar, porque reclama do amor aquilo que nem ele próprio sabe receber. Nenhum invejoso sabe amar, porque maldiz no amor aquilo que nem ele próprio consegue compreender. Nenhum coitadinho sabe amar, porque aceita do amor aquilo que já não é mais amor. Nenhum estúpido sabe amar, porque procura sempre fugir do melhor que o amor tem para oferecer. Nenhum narcísico sabe amar, porque espera do amor aquilo que só ele acredita saber dar. Nenhum cagão sabe amar, porque acredita que o amor deve ser de marca, como se se tratasse de uma peça de roupa ou perfume. Nenhum mentiroso sabe amar, porque fala do amor sem nunca falar de amor. Nenhum azedo sabe amar, porque refere-se ao amor sempre como algo de menos bom. Na verdade, quase nenhum homem sabe amar uma mulher, da mesma forma que quase nenhuma mulher sabe amar um homem, pura e simplesmente porque ambos querem encontrar no amor aquilo que julgam não ter dentro deles próprios.

José Micard Teixeira
 


O problema não está em alguém nos deixar, mas na maneira como nos deixamos ficar.

José Micard Teixeira

23 de junho de 2014

Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer-te é que te amo?

Fernando Pessoa

Quando é que isto começou?
Isto, o quê?
Isto.
O amor?
Talvez.
O amor?
Sim, pode ser isso. Quando é que o amor começou?
Começou antes de ter começado.
E depois?
E depois não acabou quando devia acabar. Durou mais tempo. O coração bate mais tempo. Não há maneira de parar o coração.

Pedro Paixão

21 de junho de 2014



































2 de junho de 2014

Ser feliz por momentos é algo de que não se deve ter vergonha. Momentos que o fim torna ridículos. A felicidade, como o amor, é um sentimento ridículo. Mas a felicidade, como o amor, só é ridícula quando vista de fora. A felicidade, como o amor, só é ridícula antes ou depois de si própria. A felicidade são momentos que, no seu presente fugaz, são mais fortes do que todas as sombras, todos os lugares frios, todos os arrependimentos. Ser feliz em palavras que, durante essa respiração breve, mudam de sentido. E nem a forma do mundo é igual: o sangue tem a forma de luz, as pedras têm a forma de nuvens, os olhos têm a forma de rios, as mãos têm a forma de árvores, os lábios têm a forma de céu, ou de oceano visto da praia, ou de estrela a brilhar com toda a sua força infantil e a iluminar a noite como um coração pequeno de ave ou de criança. Momentos que o fim torna ridículos. Momentos que fazem viver, esperando por um dia, depois de todas as desilusões, depois de todos os arrependimentos e fracassos, em que se possam viver de novo, para de novo chegar ao fim e de novo a esperança e de novo o fim. Não se deve ter vergonha de se ser feliz por momentos. Não se deve ter vergonha da memória de se ter sido feliz por momentos.

José Luís Peixoto